Catedral de Salpas ao Meio-Dia
Gelatinous plankton (salps, larvaceans)

Catedral de Salpas ao Meio-Dia

Você flutua imóvel a quinze metros de profundidade, olho a olho com uma cadeia viva de *Thalia democratica* que se estende do limite do seu alcance para um infinito cobalto tão saturado que parece menos oceano e mais o interior de uma estrela azul. Cada zoóide do agregado pende na coluna como um barril de vidro soprado — transparente quase ao ponto do inexistente — e da proximidade de poucos centímetros é possível resolver toda a arquitectura interna através da parede corporal: oito aros musculares fantasma encerram cada cilindro como sugestão de estrutura, enquanto no centro geométrico de cada barril um intestino âmbar-dourado brilha como se guardasse um filamento aquecido, fruto de uma manhã inteira de filtração contínua de fitoplâncton. Flanqueando o intestino, gónadas lenticulares cor-de-rosa flutuam como gotas de quartzo rosado, e num polo anterior de cada zoóide um coração carmesim do tamanho de uma cabeça de alfinete pulsa visivelmente a dois ou três batimentos por segundo, projetando cintilações de cor mais profunda através da parede de gel — a totalidade deste maquinário vivo construído em tecido cuja diferença de índice de refração relativamente à água circundante é tão ínfima que os animais existem menos como matéria sólida do que como perturbações ópticas da água que os compõe. A luz solar, reestruturada por quinze metros de oceano em rendilhado geométrico de causticas azul-brancas em deslocamento contínuo, projeta-se através de cada barril e completa os seus padrões no vazio além, transformando a cadeia inteira numa catedral suspensa no espaço negro-cobalto onde não existe substrato, nem fundo, nem fronteira visível — apenas água como espaço puro, e estas arquitecturas de gel quente mantendo âmbar, carmesim e branco-fantasma contra a infinitude fria.

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