O olhar mergulha diretamente pelo eixo cristalográfico c do gelo Ih, revelando uma catedral hexagonal infinita de moléculas de água dispostas em colmeia perfeita, cujos anéis concêntricos recuam em perspetiva cristalina até se dissolverem numa névoa de azul-turquesa luminoso. Cada molécula ocupa o seu ponto de rede como um nó opalescente, ligada a quatro vizinhas por pontes de hidrogénio de 2,76 Å em geometria tetraédrica de 109,5°, enquanto uma bifurcação fantasmática em cada ligação trai a desordem protónica descrita pelas regras de Pauling — o protão não tem posição fixa, apenas uma probabilidade. Os canais hexagonais ao longo do eixo c abrem-se como gargantas de vazio absoluto, eixos de escuridão aveludada que se prolongam para uma profundidade cristalográfica sem fim, e é precisamente essa ausência estrutural — consequência geométrica da recusa da ligação tetraédrica em fechar-se em empacotamento compacto — que explica a anomalia mais conhecida do gelo: a sua densidade inferior à da água líquida. A luminescência parece nascer do interior da própria rede, mais intensa nos núcleos de oxigénio e cada vez mais esbatida com a profundidade, onde o tremor térmico a −10°C acumula incerteza suficiente para dissolver as últimas camadas visíveis numa penumbra de rendilhado glaciar.
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