Neve Naselária Mesopelágica
Radiolarians

Neve Naselária Mesopelágica

O observador flutua imóvel a quinhentos metros de profundidade, envolto por uma procissão descendente de testes nassellarianos — formas cónicas, pagodes em câmaras empilhadas, elmos de silício translúcido — cada um entre cem e quatrocentos micrómetros de comprimento, mas aqui tão próximos que surgem como catedrais de vidro à deriva diante do rosto. As suas malhas de sílica amorfa, opalescente e porosa, captam os últimos fotões que ainda descem da superfície e devolvem-nos como reflexos frios e azulados ao longo de cada barra radial e de cada bordo de poro; onde uma célula viva ainda habita o teste, o citoplasma endoplásico pressiona contra a parede interior e vaza luz âmbar através das aberturas geométricas com a intensidade discreta de um vitral aceso no escuro. Os testes abandonados — e são muitos — lêem-se como prata pálida sem calor, as suas câmaras preenchidas apenas por água gelada, os arranjos de poros abertos como órbitas vazias numa estrutura de vidro fiado. Entre todas estas formas derivam flocos de neve marinha — agregados de muco transparente, matéria orgânica morta e citoplasma libertado — que captam alguma bioluminescência difusa de origem invisível e a propagam como um brilho pérola suave, enrolando-se ocasionalmente nas espinhas salientes dos testes antes de se soltarem e continuarem a tumbar pela coluna de água, num universo de intricada geometria mineral suspenso em quase total escuridão.

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