O observador flutua na embocadura de um corredor aquoso que atravessa um biofilme vivo de *E. coli*, uma galeria aberta esculpida na geometria densa de corpos bacterianos comprimidos de cada lado como muros de uma cidade subterrânea. As bactérias, coloridas em azul-gelo, são cilindros rombudos cujas duplas membranas externas aparecem como dois traços paralelos e escuros a percorrer o comprimento de cada organismo, um detalhe arquitectónico repetido centenas de vezes até a profundidade de campo se dissolver em névoa cinzenta. A matriz de exopolissacáridos que as une — âmbar translúcido, algures entre mel e vidro fosco — preenche cada interstício e irradia uma luminescência quente e difusa por baixo do frio azul celular, enquanto vesículas de membrana externa repousam no chão do canal como pérolas de resina ou derivam no fluido quase imóvel que transporta oxigénio e nutrientes para o interior do biofilme qual rio subterrâneo congelado num único instante. O corredor afunila-se progressivamente em sombra carregada, do branco-prateado próximo ao castanho-carvão longínquo onde os gradientes de nutrientes minguam e a matriz se adensa, lembrando que esta arquitectura não foi desenhada — emergiu, célula por célula, como estratégia colectiva de sobrevivência.