Pairando a centímetros do fundo arenoso a doze metros de profundidade, o olhar atravessa uma monocultura ininterrupta de *Caulerpa taxifolia* que se estende até ao limite da visão, os frondes em pena erguendo-se como uma arquitectura viva de jade eléctrico, cada um deles não uma planta mas um único organismo cenocítico — uma célula colossal sem divisórias internas, cujo citoplasma contínuo percorre estolhos, ráquis e pínulas numa trama vascular sem costuras. A luz mediterrânica chega filtrada e desviada para o azul, decomposta pela ondulação da superfície em retículos de cobalto e prata que varrem diagonalmente as pontas dos frondes e iluminam por momentos as pínulas translúcidas, revelando o córtex granuloso e a vacuola vítrea no interior da parede fotossintética. Nas passagens estreitas entre os tapetes de estolhos, a areia calcária bege guarda marcas de ripple e o espectro da vida que existia antes desta invasão — pois *C. taxifolia*, introduzida acidentalmente no Mediterrâneo na década de 1980, suprimiu comunidades bentónicas inteiras ao cobrir o substrato com uma densidade que bloqueia a luz e liberta terpenos tóxicos para os herbívoros nativos. Uma única concha de gastrópode, creme e com costeluras espiraladas, repousa na fronteira entre areia e verde com a incongruência de um fóssil de outro mundo, testemunha calcificada da diversidade que esta célula gigante, sozinha e imparável, foi apagando centímetro a centímetro.
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