Filhote Macrobiotus Primeira Luz
Tardigrades

Filhote Macrobiotus Primeira Luz

Ao nível da superfície do musgo, assiste-se a um acontecimento que, a esta dimensão, tem a solenidade de um planeta a rachar-se ao meio: o ovo de *Macrobiotus*, creme-amarelado e coberto de processos cônicos com pontas âmbar-acastanhadas dispostos em fileiras radiais, abre-se ao longo da sua sutura equatorial numa fratura limpa como a de um objeto de porcelana fina. Pelo intervalo que se alarga emerge o tardigrado de primeiro ínstar — oitenta micrómetros de ser vivo completo, cuticula translúcida em ouro-âmbar, as estruturas internas apenas perceptíveis como sombras suaves através da membrana: o intestino médio compacto, a cavidade hemocelómica repleta de fluido, as bandas musculares nascentes. Os dois pontos oculares são os únicos elementos verdadeiramente opacos de toda a cena, grânulos vermelho-alaranjados que flanqueiam a massa cerebral anterior e ardem como brasas num corpo que é, em tudo o resto, diáfano e quase imaterial. Dois ovos irmãos, ligeiramente desfocados, repousam no segundo plano contra a superfície de uma folha de musgo cujas células hexagonais brilham em jade-verde frio de cloroplastos, e o filme de água que recobre tudo denuncia a sua presença apenas na curvatura ténue do menisco onde o ovo toca a folha — uma parede de vidro curva apanhando um reflexo especular fugaz, lembrando que toda esta descoberta existe dentro do volume de uma única gota de orvalho.

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